Principais Fatos sobre “Aniversário” de Álvaro de Campos:

  • Estrutura Poética: Ausência de uniformidade nos versos e ritmo, conferindo um tom confessional que se assemelha a prosa.
  • Tema Central: Reflexão sobre o dia do aniversário do eu-poético, evocando memórias da infância e angústias adultas.
  • Contraste Temporal: O poema transita entre recordações da infância, marcada pela inocência, e a desilusão da vida adulta.
  • Simbolismo do Aniversário: Representa um momento sagrado de celebração da vida, contrapondo a felicidade infantil com a sobriedade da fase adulta.
  • Tom: Nostalgia e conflito interno, com um sentimento de perda e resignação frente ao tempo que passa.
  • Conclusão: Expressa um conformismo amargo com o presente, contrastando com um passado de felicidade e inocência.
  • Reflexão Final: Uma autoconfissão poética que articula a amargura e a contemplação sobre a transitoriedade da vida.

No poema “Aniversário”, Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, manifesta uma estrutura poética onde a regularidade dos versos e a ritmicidade são dispensadas, conferindo à obra uma essência confessional que se aproxima de um diálogo em prosa.

Este texto é centrado na rememoração de uma data crucial para o narrador: o dia do seu aniversário. Essa ocasião serve de catalisador para uma viagem ao passado, evocando memórias da infância e despertando no narrador reflexões profundas e angústias existenciais. Essa data serve, então, como um marco que divide e contrasta as vivências do passado inocente com as percepções do presente. No período da infância citado no poema, destaca-se a pureza e a inconsciência infantil: “Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma”. A transição para a fase adulta é vista como um processo de desilusão, onde a vida perde o sentido outrora percebido.

A celebração do aniversário é simbolizada como um evento de significado quase sagrado, elevando a criança a um patamar central em um universo que a acolhe e celebra: “As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa”, refletindo o egocentrismo típico da infância. No entanto, na fase atual, tais comemorações cessaram, deixando o poeta em um estado de mera existência, marcada por um pensamento crítico e desiludido sobre a vida, o que o priva da inocência de tempos idos. A nostalgia e o conflito interno permeiam o poema, evidenciando uma saudade dolorosa de um passado percebido como mais feliz.

O verso “serei velho quando o for. Nada mais.” sugere uma resignação ao conflito emocional vivido pelo eu lírico. A expressão “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira !…” fecha o tom confessional da obra, destacando um resignado descontentamento com um presente melancólico e carente de esperança. A repetição da importância do aniversário sublinha a severa contradição entre a felicidade passada da infância e a realidade sombria da vida adulta, culminando na amarga aceitação do passado em “Eu era feliz e ninguém estava morto”.

A eloquência do eu lírico em articular um sentimento de perda e conformismo é evidente, articulando de maneira límpida as transições temporais e emocionais. A obra, emulando uma autoconfissão poética, reflete o desencanto e a melancolia típicos de quem percebe a fugacidade da existência e o lamento por um tempo de pureza e felicidade irrecuperáveis, delineando um retrato emotivo de quem contempla o crepúsculo da vida com resignação e nostalgia.

Poema Aniversário de Álvaro de Campos